Sempre repito nas conversas, eventos e projetos que acompanho: se a gente quer um ecossistema mais digital, a economia também precisa ser mais digital. E isso começa pelo dinheiro. Não basta trocar o papel-moeda por um QR code colado num balcão. A questão é mais profunda. Estamos falando de transformar a base que permite que negócios inovem, cresçam e se conectem melhor com as pessoas.
Neste artigo, trago essa provocação com mais calma. Quero mostrar por que acredito que a digitalização do dinheiro é o ponto de partida de toda essa engrenagem. A América Latina está vivendo uma evolução acelerada no comércio digital e, olhando de perto, dá pra ver que isso não aconteceu por acaso.
Compartilho dados, comparações e casos reais para reforçar a ideia de que um dinheiro mais digital é o primeiro passo para uma economia mais moderna, mais inclusiva e com mais oportunidades para todos.
A correlação entre dinheiro digital, negócios digitais e economia digital
Nos últimos dez anos, Brasil e México têm se destacado como exemplos de como digitalizar pagamentos pode impulsionar a digitalização dos negócios e da economia como um todo. O Brasil lançou o Pix em 2020 e, em três anos, ele superou todos os outros meios de pagamento não em espécie. Em 2023, o Pix somou mais de 42 bilhões de transações e movimentou R$ 17 trilhões. Isso corresponde a mais da metade de todas as transações feitas no país (Banco Central do Brasil, 2024).
O México implementou o CoDi em 2019 e viu a adoção crescer mais lentamente, com cerca de 12 mil transações diárias (Mexico Business News, 2024). Contudo, fintechs como Spin by OXXO já ultrapassaram 10 milhões de usuários. A expansão dessas soluções promove inclusão financeira, reduz custos, amplia a formalização e gera dados que fortalecem a inteligência de mercado.
Em países onde o dinheiro digital se dissemina, o pequeno comércio pode vender online, o consumidor compra com mais praticidade e o ecossistema digital passa a se retroalimentar com mais velocidade.
Casos emblemáticos: Brasil, México, China, Suécia e Índia
Na China, mais de 80% das transações no varejo são feitas via carteiras digitais como Alipay e WeChat Pay (WorldPay, 2024). O comércio eletrônico representa 47% do varejo total, e a economia digital já responde por cerca de 40% do PIB (China Academy of Information and Communications Technology, 2023).
Na Suécia, apenas 1% do PIB circula em dinheiro vivo. Menos de 8% da população usa cédulas no dia a dia, e as transações eletrônicas são padrão mesmo para pequenos valores (OECD, 2023). O país alcançou cerca de 30% de participação do comércio digital no varejo, com um alto nível de formalização tributária.
Na Índia, o sistema UPI processa mais de 9 bilhões de transações mensais, com quase 400 milhões de usuários ativos (IndiaStack, 2023). O número de adultos com conta bancária passou de 53% para 78% entre 2017 e 2021. A economia digital representa hoje 12% do PIB e deve atingir 20% até 2026, segundo o Ministério das Finanças da Índia. A digitalização dos pagamentos também gerou uma economia de mais de US$ 2 bilhões por ano em vazamentos de programas sociais (McKinsey Global Institute, 2023).
No Brasil, o impacto do Pix foi direto no comércio eletrônico e na inclusão financeira. Em 2024, o sistema atingiu 154 milhões de usuários ativos. Com sua gratuidade, disponibilidade 24/7 e integração com QR Codes, o Pix transformou a forma como milhões de brasileiros consomem e recebem pagamentos. A economia digital representa hoje cerca de 25% do PIB nacional (FGV, 2023).
No México, o comércio eletrônico cresceu 24,6% em 2023, alcançando 6,4% do PIB (Euromonitor International, 2024). Apesar do uso intenso de dinheiro em espécie, fintechs como Clip e Konfío aceleraram a aceitação de pagamentos digitais. A Lei Fintech de 2018 posicionou o país como um dos principais polos de inovação financeira da América Latina.
A relevância da América Latina
A América Latina tem mostrado que a digitalização não é privilégio de economias desenvolvidas. Pelo contrário: em muitos casos, a ausência de infraestrutura tradicional robusta permitiu um salto direto para o digital. Esse foi o caso do Brasil com o Pix, da Índia com o UPI, e do Quênia com o M-Pesa.
Com mais de 70% da população conectada à internet, ampla adoção de smartphones e ecossistemas de fintechs em expansão, a região tem as condições ideais para um crescimento acelerado da economia digital. Governos, setor privado e populações têm adotado em massa tecnologias acessíveis, interoperáveis e de baixo custo.
A digitalização do dinheiro é o início de um ciclo virtuoso de prosperidade e inclusão. Ela reduz a informalidade, melhora a arrecadação tributária, estimula o crédito e amplia o acesso a serviços públicos e privados.
O gráfico de linha abaixo, mostra a evolução e projeções da adoção de pagamentos digitais (% da população usuária frequente) entre 2015 e 2026 nos seguintes países: China, Suécia, Brasil, México e Estados Unidos. A China e a Suécia lideram com mais de 80% de adesão projetada até 2026, seguidas por Brasil e México em rápido crescimento. Os Estados Unidos apresentam crescimento mais lento, mantendo níveis abaixo de 50%.
Avanço da Economia Digital: Impacto no PIB, Produtividade e Inovação
Por “economia digital” entende-se a parcela da atividade econômica derivada de tecnologias digitais, incluindo comércio eletrônico, serviços online, indústria de software e TI, conteúdo digital, entre outros. A tese investigada parte do princípio de que digitalizar o dinheiro e os negócios impulsiona o crescimento da economia digital, contribuindo diretamente para o PIB, a produtividade, a inovação e a formalização. As evidências internacionais corroboram amplamente essa relação positiva.
Participação da economia digital no PIB
Em todos os países analisados, a participação da economia digital no PIB vem crescendo. Entretanto, esse crescimento é significativamente mais acelerado nas economias que adotaram rapidamente pagamentos e modelos de negócio digitais.
A China é um exemplo emblemático. Em 2022, o seu “PIB digital” atingiu ¥50,2 trilhões, representando cerca de 41,5% do total. Esse valor inclui desde setores de tecnologia (hardware, software, telecomunicações) até a digitalização de setores tradicionais, como o comércio por plataformas e os serviços financeiros online. Essa proporção é muito superior à de economias emergentes menos digitalizadas.
No Brasil, o governo estimou que a economia digital representou 25,1% do PIB em 2021, frente aos 22% registrados em 2016. Na Índia, o PIB digital alcançou 11,7% em 2022–2023, com previsão de chegar a 20% até 2026, puxado pelo avanço da TI, do comércio e dos serviços públicos digitais. No México, onde os processos de digitalização são mais incipientes, o e-commerce contribuiu com 6,4% do PIB em 2023, e mesmo somando outros setores digitais, a participação total ainda é inferior a 10%.
Em economias avançadas como os Estados Unidos e a União Europeia, a medição tradicional aponta cerca de 10 a 15% do PIB oriundo de setores digitais estritos. No entanto, essas métricas não capturam totalmente os ganhos de produtividade espalhados pela economia, nem o valor de serviços digitais gratuitos, o que tem levado especialistas a propor novas abordagens para mensurar bem-estar e progresso econômico.
Em síntese, há uma associação clara: países com maior penetração de pagamentos e negócios digitais tendem a apresentar uma maior fatia da economia digital em seu PIB, seja pelo desenvolvimento de indústrias tecnológicas (como no caso chinês), seja pela digitalização em larga escala do comércio e dos serviços (como na Suécia).
Produtividade e crescimento
A digitalização tem se mostrado um vetor relevante de produtividade. Estudos da OCDE demonstram que a adoção de ferramentas digitais aumenta a eficiência empresarial, especialmente entre pequenas e médias empresas, por reduzir custos de transação, ampliar o alcance de mercado e automatizar operações.
Na agricultura brasileira, por exemplo, o uso de tecnologias digitais, como drones, IoT e pagamentos eletrônicos, vem aumentando a competitividade e a capacidade de exportação do setor. No cenário global, o período de 2010 a 2020 mostrou correlação entre indicadores de digitalização, como conectividade, uso de pagamentos digitais e e-commerce e crescimento mais robusto do PIB per capita nos países líderes em digitalização.
Estudos do FMI indicam que a inclusão financeira digital impulsiona diretamente o crescimento econômico, mesmo quando controlados fatores externos. A digitalização, ao formalizar atividades antes informais, gera ganhos adicionais ao PIB. Organizações como a Better Than Cash Alliance destacam que digitalizar pagamentos a fornecedores e trabalhadores formaliza cadeias produtivas e pode aumentar a arrecadação pública. Casos como Tanzânia e Gana mostram que a digitalização de impostos e taxas portuárias resultou em bilhões em receitas extras e redução de corrupção.
Inovação e novos modelos de negócio
O avanço da economia digital também fomenta ecossistemas de inovação. Startups em áreas como fintech, marketplaces e serviços compartilhados dependem de meios de pagamento digitais para funcionar. Sem eles, modelos como Uber, iFood ou Airbnb seriam inviáveis.
Na China, a familiaridade da população com pagamentos digitais permitiu o surgimento de superapps, como o WeChat, que integram comércio, pagamentos, mobilidade e serviços financeiros. Isso também viabilizou inovações como seguros sob demanda e análise de crédito via transações digitais.
Na Índia, a combinação do sistema de identidade digital (Aadhaar) com o UPI impulsionou o surgimento de startups em educação, saúde e serviços financeiros. Muitas dessas empresas escalam soluções a baixo custo apoiadas em infraestrutura pública digital. No Brasil, o Pix e iniciativas como o Open Banking têm fomentado novos produtos financeiros e impulsionado a integração de pequenos empreendedores a plataformas digitais.
Esses exemplos evidenciam o chamado “efeito capacitador” da digitalização: quando o dinheiro e os negócios se tornam digitais, abrem-se novos horizontes para modelos antes impensáveis, aumentando a inovação e a competitividade econômica.
Formalização e inclusão social
Um dos pilares centrais da tese é a relação entre digitalização econômica, formalização e inclusão. A substituição do dinheiro em espécie por meios digitais cria registros financeiros úteis para acesso a crédito, fiscalização tributária e políticas públicas mais eficazes.
Na Índia, após a desmonetização de 2016 e a disseminação dos pagamentos digitais, observou-se aumento no número de contribuintes e maior volume de transações registradas. No Brasil, o Pix permitiu que milhares de microempreendedores formalizassem suas operações, inclusive emitindo notas fiscais para facilitar os pagamentos digitais.
Na América Latina, a proporção de adultos sem conta bancária caiu de 48% em 2014 para 26% em 2021, muito por conta do avanço de pagamentos digitais e da digitalização de programas sociais. Isso representa dezenas de milhões de pessoas entrando na economia formal.
Ainda existem desafios, como a necessidade de educação financeira e proteção contra fraudes, mas a tendência estrutural é clara. À medida que os países digitalizam suas transações, a informalidade tende a diminuir. Isso é positivo tanto para o crescimento econômico de longo prazo quanto para a inclusão social.
E os Estados Unidos?
Ao analisar os países mais avançados em digitalização de pagamentos e negócios, os Estados Unidos raramente aparecem no topo. Apesar de serem a maior economia do planeta, ainda existe forte dependência de cartões físicos, cheques em papel e sistemas legados. Em 2024, menos de 30% dos americanos usavam carteiras digitais com frequência, enquanto países como China, Brasil e Quênia superam 50%, 70% ou até 80% de adoção (WorldPay, 2024).
O sistema FedNow, lançado apenas em 2023, é o primeiro sistema de pagamentos instantâneos do país e ainda tem adoção limitada. Além disso, os Estados Unidos permanecem em fase exploratória no desenvolvimento de sua moeda digital oficial (CBDC), enquanto 11 dos 20 países do G20 já estão em fases piloto (IMF, 2024).
Isso mostra que, embora os EUA liderem em escala econômica, com PIB acima de US$ 26 trilhões e sua infraestrutura digital está atrás de economias que optaram por acelerar a modernização dos seus meios de pagamento.
Conclusão
Digitalizar o dinheiro é o primeiro passo para digitalizar os negócios. E quando os negócios se tornam digitais, a economia como um todo se transforma. Os casos analisados indicam que existe uma correlação clara e consistente entre esses três elementos.
Embora ainda não possamos afirmar causalidade direta, há fortes indícios de que a digitalização financeira contribui para um crescimento econômico mais inclusivo, com maior formalização, produtividade, inovação e melhor distribuição de renda.
A América Latina tem mostrado que, com soluções acessíveis como o Pix, o CoDi e carteiras digitais, é possível criar um novo ciclo de prosperidade. Por isso, continuo defendendo: para termos um ecossistema mais digital, precisamos começar por um dinheiro mais digital.
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